No início do ano, fui jantar na casa dos avós de uma amiga e um diálogo bobo acabou me marcando. Essa casa tinha uma biblioteca enorme, como todos os livros do mundo e mais alguns (ta, vou tentar seguir o texto sem tanto exagero). Depois de comer, fomos lá dar uma olhadinha. E aí eu, num momento nerd descontraída, soltei: ”que desespero! Tem tanto coisa que quero ler e nunca vou conseguir ler tudo! O que faço?” E minha amiga, num momento evoluída e ponderada, disse: “você faz escolhas”. Como quem não quer nada, a chatinha resumiu algo que conhecemos bem: queremos ter tudo e mais alguma coisa, mas não podemos. E aí precisamos escolher.
Ter opções é muito dinâmico, claro. Sair para comprar xampu e ter zilhões de tipos à disposição. Ser livre para se jogar em namoros, amizades, cursos, planos, viagens, modos de ver a vida – e para colocar um ponto final nisso tudo, se quiser. Você pode sair do colégio e ir direto para a faculdade ou negociar com seus pais um intercâmbio antes disso. Falando em faculdade, pode escolher entre mil cursos. Pode namorar mil pessoas e casar um dia, assim como pode não casar e ter um filho com seu melhor amigo, não ter filhos, casar várias vezes, fazer um voto de abstinência. O problema é que quanto mais opções temos, mais confusos ficamos. Assim como minha amiga e eu naquela biblioteca. Ta, só eu, já que ela estava pagando de evoluída e ponderada. Enfim: como tem mil coisas para a gente fazer – umas mais fáceis, outras nem tanto – e como existem, várias possibilidades de agir, mas de desejar, de sonhar –, ficamos perdidos. Ainda mais porque não podemos ter tudo. Não podemos mesmo? Sem querer ser chata: não, não podemos.
Desculpa, mas não dá para você ter um namoro de mil anos e querer o mesmo frio na barriga do começo. Não dá pra ser legal o tempo todo e nunca dizer “não” sem se prejudicar. Não dá pra comer quilos de chocolate sem engordar. Precisamos ter prioridades, percebendo que se ganhamos de um lado, perdemos do outro. A gente vive tendo que escolher.
É fácil? Não. Mas pode ser delicioso? Pode, ainda mais se não formos com muita sede ao pote. Sem querer voltar ao passado nem nada, há uns 70 anos, o pessoal tinha muito menos opção. De coisas para fazer, cursos para escolher, de xampu. Hoje, a gente tem, mas fica angustiado. Quem sabe nos sentimos mais felizes se tivermos a consciência de que, escolhendo algumas coisas, em vez de tudo, ficaremos menos frustrados e aproveitaremos melhor a vida. Não leremos todos os livros da biblioteca, mas leremos vários. E muito mais bem lidos do que se continuássemos tentando ler tudo.
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